No Brasil, O Dia do Trabalho ou Dia do Trabalhador começou a ser celebrada no início do século 20, mas só se torna feriado a partir de um decreto assinado pelo presidente Artur Bernardes em 1924 (Crédito: Imagem criado por IA / Gemini).
A história da cerveja é indissociável da história do trabalho. Muito antes de se tornar o símbolo do descanso após o expediente, a bebida foi utilizada como salário, nutrição e ferramenta de mobilização social. Desde as tavernas medievais até a fumaça dos pubs da Revolução Industrial, passando pela história dos Movimentos Trabalhistas, ela sempre serviu como o tecido social que uniu trabalhadores ao longo dos séculos. Para celebrar este 1º de maio em tempos de discussão de escala 6×1, Dia do Trabalho e do Trabalhador, a reportagem do Guia da Cerveja separou cinco fatos históricos que provam que a nossa “gelada” tem o DNA proletário.
1 – Salário em estado líquido A relação entre cerveja e o trabalhador é tão forte que remonta à Antiguidade. Muitas das primeiras civilizações do mundo usavam a cerveja como parte do pagamento da mão de obra. Assim, um dos seus primeiros usos foi como salário. A prova mais célebre é uma tabuleta de argila de 3 mil a.C., pertencente ao acervo do Museu Britânico. O artefato funciona como um holerite ancestral, registrando as rações de cerveja distribuídas aos operários na cidade de Uruk, na Mesopotâmia. Pagar salário com cerveja também foi prática comum no Egito Antigo. Há várias inscrições que registram a prática e, dizem, até as pirâmides foram construídas com apoio da bebida, que garantia também hidratação e nutrição adequadas.
2 – Saison: o combustível das fazendas Muito antes da cerveja chegar às grandes cidades ou ser produzida em indústrias, ela já era feita em fazendas, de uma maneira quase caseira. Até hoje existe um estilo de cerveja que conserva essa marca em sua história: a Saison. No interior da Bélgica, a cerveja seguia o ritmo das estações. Os fazendeiros produziam a Saison durante o outono e inverno para vender aos saisonnières — os trabalhadores temporários que chegavam para a plantação no verão e colheita na primavera. Phil Markowski, mestre cervejeiro, explica em seu artigo no Guia Oxford da Cerveja que a Saison era, acima de tudo, uma “cerveja de provisão”. Segundo ele, a produção atendia a três objetivos: refrescar os trabalhadores no verão, garantir ocupação para a mão de obra fixa durante o inverno e gerar bagaço para alimentar o gado. Embora o sabor original tenha se perdido no tempo, as Saisons modernas preservam o caráter rústico, sendo bebidas leves, secas e refrescantes. Experimente a Saison Dupont, uma das maiores referências do estilo que voltou a ser importada para o Brasil no início deste ano.
3 – Grisette: A aliada dos mineiros A cerveja acompanhou o trabalhador não apenas no campo, mas também até às minas de carvão. O Sul da Bélgica foi uma das primeiras regiões a se industrializar na Europa Continental entre o final do século 18 e o começo do 19. E havia uma grande necessidade de combustível para mover as novas máquinas. A Grisette é uma espécie de variação da Saison que entrou para a história por ser muito apreciada especialmente pelos mineradores. Uma cerveja leve e refrescante, pensada especificamente para ajudar a “lavar a alma” e recuperar as energias após um dia exaustivo de trabalho braçal puxado nas profundezas da terra. O nome significa algo como “a pequena cinzenta”. E tem inúmeras explicações, nenhuma de fato provada. Pode fazer referência à sua aparência em geral turva, ou até mesmo uma menção à condição dos próprios trabalhadores pós-expediente, cobertos de cinzas.
4 – Porter: a “rockstar” da Revolução Industrial Talvez uma das histórias mais conhecidas sobre a bebida e a classe trabalhadora seja a da Porter. Começa pelo nome, que é o mesmo dado aos estivadores do porto de Londres no século 18 — e que era usado por extensão para todos os trabalhadores braçais da região. Depois, ela se desenvolveu e se tornou o grande símbolo da Revolução Industrial, servindo de sustento para a nova massa de operários que surgia nas cidades. Martin Cornell, jornalista especializado em cervejas, a considerava como a primeira cerveja rockstar do mundo. Há várias histórias sobre sua criação. Uma delas é que teria surgido como uma mistura de cervejas com diferentes teores alcoólicos e envelhecimentos nos pubs. A Porter foi uma das primeiras cervejas mais escuras do mundo, mesmo antes da invenção dos maltes torrados modernos. Hoje existem diferentes versões, mas se você quer provar algo mais próximo do original, a Fuller’s London Porter tenta justamente fazer referência a essas Porters iniciais.
5 – Bitters, German Lagers e o Movimento Trabalhista As primeiras manifestações do Movimento Trabalhista aconteceram na Inglaterra durante o século 19 como forma de reivindicar melhores condições de trabalho e menores jornadas — que podiam passar de 15 horas diárias naquela época. Mas as reuniões de trabalhadores eram ilegais até 1824. Muitos encontros se davam às escondidas entre uma cerveja e outra, nos pubs. No cardápio, além da Porter e sua evolução natural preta, a Stout, havia também as Bitters. Esse tipo de cerveja foi se popularizando até as primeiras décadas do século 20, acompanhando o crescimento do movimento trabalhista europeu. Um bom exemplo contemporâneo é a Fuller’s London Pride, uma Special Bitter. Nos Estados Unidos, no final do século 19, em 1º de maio de 1886 em Chicago, mais de 300 mil trabalhadores fizeram greve exigindo “8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de vida”. Três dias depois, acontece o massacre de Haymarket. Em 1889, em Paris, a data de 1º de maio é instituída como símbolo da luta trabalhista. A cerveja que acompanhava os trabalhadores da época era a German Pils, uma variação mais tradicional da Pilsen moderna, trazida da Europa pelos imigrantes germânicos. Em Chicago, a grande maioria das cervejarias era de origem alemã. Um bom exemplo dessa cerveja hoje é a Frohenfeld German Pils, de Curitiba (PR).
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O Brasil e o Dia do Trabalho Trabalhadores começaram a comemorar a data no Brasil no início do século 20. Mas só se torna um feriado a partir de um decreto assinado pelo presidente Artur Bernardes em 1924. Em 1º de maio de 1943, Getúlio Vargas utilizou a data para assinar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), instituindo salário mínimo e férias. E alterando o título para Dia do Trabalho, co…
