Lesão do labrum no ombro: sintomas, tipos e tratamento
Lesão do labrum engana a ultrassonografia: dor profunda com clique e trava pede artrorressonância.
Um arremessador de beisebol amador de Campo Grande, 28 anos, sentia um clique fundo no ombro toda vez que armava o braço para lançar, seguido de uma dor que ele descrevia como "lá dentro", impossível de apontar com o dedo. Três ultrassonografias vieram normais. Foi a ressonância com contraste que mostrou o problema: uma lesão do labrum no topo da cavidade, onde o tendão do bíceps se prende. É uma lesão que engana exames simples e que um médico especializado em ombro em Goiânia ou em qualquer centro de referência aprende a suspeitar pelo relato antes de pedir a imagem.
O labrum é uma borda de cartilagem fibrosa que contorna a cavidade da escápula e a torna mais funda, e por isso mais estável. Quando ele rasga, o ombro perde parte do encaixe e o bíceps perde o ponto de apoio. Este texto explica o que é a lesão, quais tipos existem, como ela acontece, quais sinais a diferenciam de tendinite, o que a imagem mostra e como é tratada.
O que é o labrum e o que acontece quando ele rasga
A cavidade da escápula, a glenoide, é rasa, e o labrum a aprofunda em cerca de 50%, funcionando como um anel de vedação que aumenta o contato com a cabeça do úmero. Além de estabilizar, ele serve de inserção para os ligamentos da cápsula e, no topo, para o tendão da cabeça longa do bíceps.
O rasgo ou o descolamento dessa borda é a lesão. Quando acontece no topo, de frente para trás, recebe o nome de lesão SLAP. Quando acontece na parte anterior, após luxação, é a lesão de Bankart. Na parte posterior, aparece em quem faz supino pesado e em arremessadores.
Cada localização tem um mecanismo e um tratamento próprios, e é por isso que a imagem precisa mostrar onde está o rasgo.
Tipos de lesão do labrum e como cada uma surge
A tabela reúne os tipos mais comuns, o mecanismo típico e o perfil de quem costuma ter.
| Tipo | Como acontece | Quem costuma ter |
|---|---|---|
| SLAP (superior) | Tração repetida do bíceps ou queda sobre o braço estendido | Arremessadores, nadadores, quem cai de mão espalmada |
| Bankart (anterior) | Luxação anterior do ombro arranca o labrum | Jovens após deslocamento traumático |
| Posterior | Carga axial com o braço à frente, como no supino e em tackle | Praticantes de força, jogadores de rúgbi e futebol americano |
| Degenerativa | Desgaste com a idade, sem trauma definido | Acima de 40 anos, muitas vezes sem sintomas |
| Cisto paralabral | Líquido escapa pelo rasgo e forma um cisto que comprime nervo | Atletas com fraqueza para rotação externa |
Rasgos degenerativos em pessoas acima de 40 anos são achados frequentes de ressonância e nem sempre são a causa da dor, o que exige cuidado na indicação de cirurgia.
Sinais que diferenciam a lesão de uma tendinite
O relato do paciente costuma trazer pistas que a tendinite não traz.
- Dor profunda, que a pessoa não consegue localizar com um dedo, diferente da dor lateral da bursite.
- Clique ou estalo fundo ao girar o membro em posição de arremesso ou ao levar a mão atrás da cabeça.
- Sensação de trava ou de que o ombro "pega" em certos movimentos.
- Dor ao fazer supino, flexão de braço e ao carregar peso com o cotovelo esticado.
- Perda de velocidade ou precisão no arremesso, no saque ou na braçada, antes mesmo da dor forte.
- Em quem já luxou o ombro, sensação de insegurança na posição de braço aberto.
Como o rasgo é diagnosticado
O exame físico usa testes que tensionam o labrum e o bíceps, como o teste de O'Brien, em que o braço à frente com o polegar para baixo reproduz a dor profunda, e os testes de apreensão para instabilidade. Nenhum teste isolado fecha o diagnóstico; o conjunto aponta a suspeita.
A ultrassonografia não vê bem o labrum, e a ressonância comum perde parte das lesões. O exame de escolha é a artrorressonância, com contraste injetado dentro da articulação, que delineia o rasgo.
Em alguns casos a confirmação definitiva só vem na artroscopia, quando o cirurgião vê o labrum diretamente.
Tratamento conservador: quando vale tentar
Lesões degenerativas, rasgos pequenos sem instabilidade e pacientes que não arremessam costumam responder à fisioterapia. O trabalho foca em fortalecer o manguito rotador e os estabilizadores da escápula, corrigir o déficit de rotação interna comum em arremessadores e ajustar a mecânica do gesto esportivo.
Anti-inflamatório por período curto e infiltração ajudam na fase de dor. O período de teste é de três a seis meses.
Em quem não tem instabilidade nem clique mecânico, a maioria melhora sem cirurgia, mesmo com o rasgo ainda visível na imagem.
Cirurgia: reparo, tenodese ou estabilização
Quando o tratamento conservador falha, a artroscopia permite três caminhos. Em jovens com lesão SLAP e demanda de arremesso, o reparo reinsere o labrum na glenoide com âncoras. Em pacientes acima de 35 a 40 anos, a tenodese do bíceps, que fixa o tendão fora da articulação, tem resultado mais previsível que o reparo.
Na lesão de Bankart com instabilidade, a cirurgia é a estabilização, com reinserção do labrum e retensionamento da cápsula.
Cistos paralabrais são drenados e o rasgo que os alimenta é reparado no mesmo ato.
Recuperação e retorno ao esporte
Após o reparo, o braço fica em tipoia por três a quatro semanas, com movimento passivo iniciado cedo. O fortalecimento entra por volta do segundo mês, e o gesto de arremesso volta de forma progressiva a partir do quarto mês.
O retorno completo ao esporte de arremesso leva de seis a nove meses, e a taxa de retorno ao mesmo nível é menor em arremessadores de elite do que em praticantes recreativos, o que precisa ser conversado antes da cirurgia.
Na tenodese, a recuperação é mais rápida e o retorno às atividades diárias acontece em seis a oito semanas.
Perguntas frequentes sobre lesão do labrum
O rasgo cicatriza sozinho?
Rasgos pequenos podem parar de doer com fisioterapia, mas a cartilagem tem pouca circulação e o rasgo em geral não se fecha por conta própria.
Ultrassonografia detecta o rasgo?
Raramente. O labrum fica dentro da articulação, e o exame que mostra o rasgo é a artrorressonância.
Toda lesão SLAP precisa operar?
Não. Lesões degenerativas e pacientes que não arremessam costumam melhorar sem cirurgia. A indicação é para jovens ativos com falha do tratamento conservador.
O que é tenodese do bíceps?
É a fixação do tendão da cabeça longa do bíceps fora da articulação, tirando a tração sobre o labrum. É preferida ao reparo em pessoas acima de 35 a 40 anos.
Posso fazer musculação com o labrum rasgado?
Com orientação, sim, evitando supino com pegada aberta, desenvolvimento atrás da cabeça e exercícios que tracionem o bíceps com o braço elevado.
Quanto tempo até voltar a arremessar?
Entre seis e nove meses após o reparo, com progressão de arremesso supervisionada. Antes disso, o risco de nova lesão é alto.
Resumo
A lesão do labrum é o rasgo da borda de cartilagem que aprofunda a cavidade do ombro, com tipos diferentes conforme o local: SLAP no topo, ligada ao bíceps e ao arremesso; Bankart na anterior, após luxação; posterior, em atletas de força e contato; e degenerativa, comum após os 40 anos e nem sempre sintomática. O sinal típico é dor profunda com clique e trava, a ultrassonografia não a detecta e a artrorressonância é o exame de escolha. Fisioterapia resolve os casos sem instabilidade; reparo, tenodese ou estabilização por artroscopia ficam para quem não melhora, com retorno ao arremesso entre seis e nove meses.

