As mudanças climáticas são o maior desafio coletivo da atualidade. Enfrentá-las exige uma transformação profunda na forma de produzir, consumir e se relacionar com a energia, os territórios e os recursos naturais. A transição em curso é tecnológica, política, econômica, institucional, cultural e cidadã. Mais do que trocar fontes de energia, é preciso redefinir prioridades, redistribuir benefícios e riscos, fortalecer a participação social e criar modelos de desenvolvimento que respeitem os limites ecológicos do planeta e promovam a justiça social.
No entanto, em congressos, seminários e feiras sobre o tema, o discurso muda. Em vez de um debate sobre política e soberania energética, o que se vê são estandes, rodadas de investimento, prospecção de mercados e disputas por oportunidades econômicas. A impressão é que o conceito foi trocado: deixou-se de falar em transição energética para celebrar os negócios da transação energética. A referência é uma homenagem ao professor Célio Bermann, que faleceu em janeiro de 2026.
Essa mudança não é apenas semântica. É um diagnóstico. O Brasil se tornou um dos principais exemplos mundiais de expansão das energias renováveis. A matriz elétrica está entre as mais limpas do planeta, com crescimento acelerado da geração eólica e solar. Mas as contradições do modelo energético aparecem quando se confrontam os dados.
A história do setor elétrico brasileiro mostra isso. O Sistema Interligado Nacional foi um projeto político notável, que leva energia a 99% da população. Por outro lado, foi construído com grandes hidrelétricas que deslocaram comunidades, inundaram patrimônios culturais, alteraram ecossistemas e geraram conflitos sociais que persistem até hoje. Os paradoxos não ficaram no passado.
Nunca se produziu tanta eletricidade a partir do vento e do sol. Mas também nunca se desperdiçou tanta energia. A expansão das fontes renováveis intermitentes deixou o sistema mais vulnerável. Em 2026, o país já descartou volumes de geração renovável equivalentes à produção anual de Itaipu. Ao mesmo tempo, a pobreza energética cresce justamente entre quem deveria ser beneficiado por essa expansão. Mais de 82 milhões de brasileiros estão inadimplentes, e as contas de energia elétrica, água e gás representam cerca de 21% das dívidas em atraso. O paradoxo é claro: produzimos mais energia do que nunca, mas ela está cada vez menos acessível para boa parte da população. A pergunta é: transição energética para quem?
Se a expansão da infraestrutura não reduz desigualdades, não garante acesso universal a energia de qualidade, não barateia tarifas e não melhora as condições de vida, é preciso questionar se o sistema energético está sendo transformado ou apenas ampliando seus mercados.
A corrida por data centers ilustra esse dilema. Essas estruturas consomem muita eletricidade e água, em um momento de crescente insegurança hídrica por causa das mudanças climáticas. Energia pode ser gerada de várias formas, mas água doce é um recurso finito e reconhecido como direito humano. É legítimo perguntar quais prioridades orientam o planejamento energético nacional e quais interesses estão no centro dessa agenda.
O problema pode não ser apenas tecnológico, mas também de imaginação. A universidade tem um papel importante nesse ponto: produzir conhecimento, crítica e utopias.
A maioria dos cenários de transição energética parte da ideia de que basta substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis para garantir um futuro sustentável. Mas uma transição de verdade não se resume a trocar a origem da eletricidade. Ela exige transformar as relações entre energia, território, economia e sociedade. É preciso perguntar não apenas como produzimos energia, mas para quê, para quem e a que custos sociais e ambientais.
Em resumo, falta diversidade de imaginários sobre o futuro energético.
Flávia Collaço é professora da Escola de Engenharia de São Carlos da USP (Universidade de São Paulo).
