30/05/2026
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Fronteira de MS: berço do PCC e CV como “terroristas

A prisão de Gerson Palermo em Campo Grande, na quarta-feira (27), coincide com a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos. A decisão, confirmada na noite de quinta-feira (28), deve afetar a cooperação entre os dois países. O caso recoloca em debate o papel da fronteira de Mato Grosso do Sul na produção de personagens e estruturas do crime organizado.

Nas últimas décadas, a região foi disputada por traficantes como Fahd Jamil, Jorge Rafaat, Fernandinho Beira-Mar, Luiz Carlos da Rocha (Cabeça Branca), Sérgio Roberto de Carvalho (Major Carvalho) e Gerson Palermo. Todos, em diferentes épocas, precisaram de proteção política, policial ou institucional para operar.

A fronteira se transformou em uma plataforma logística continental. Conecta o Brasil a centros produtores de cocaína na Bolívia, Colômbia e Peru. Oferece corredores rodoviários, ferroviários, fluviais e aéreos para distribuir drogas ao mercado interno e à Europa. O ex-superintendente da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, Edgar Marcon, afirma que o Estado funciona como uma transportadora na cadeia do tráfico. “Nós somos rota”, disse.

Investigações revelaram indícios de cooptação de agentes públicos. Fahd Jamil tinha influência sobre estruturas de poder na fronteira. Jorge Rafaat mantinha um sistema próprio de proteção. Major Carvalho, ex-oficial da Polícia Militar, tornou-se símbolo da infiltração do narcotráfico no Estado. O desembargador Divoncir Maran foi aposentado compulsoriamente por favorecer interesses do crime organizado, ao conceder benefício que permitiu a fuga de Palermo em 2020.

Para Marcon, o crime organizado só se sustenta por causa da corrupção. Ele defende que o Estado fortaleça seus mecanismos internos de controle. “Quer combater o crime, tem que fazer o dever de casa primeiro”, afirmou.

A classificação das facções como terroristas pelos EUA não é consensual. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública alertou para o risco de transformar o problema em bandeira eleitoral. A entidade defendeu a regulação de setores explorados pelo crime, como fintechs, apostas eletrônicas e criptoativos. Marcon considera a equiparação equivocada. Para ele, o enfrentamento depende de cooperação policial internacional.

A Operação Carbono Oculto e seu desdobramento, a Fluxo Oculto, investigam fintechs suspeitas de integrar estrutura de ocultação de patrimônio do PCC. O grupo teria movimentado mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. As apurações alcançam endereços na Faria Lima, em São Paulo, e em outros estados. Marcon destaca que o grande problema hoje é o destino do dinheiro do crime. “O criminoso não está mais na fronteira. O criminoso está nas capitais”, concluiu.

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