Vivemos sob uma pedagogia da postergação, que ensina a deslocar o sentido da vida para o futuro: a próxima conquista, o próximo cargo, a próxima viagem. O valor da existência parece estar sempre em um futuro idealizado, nunca no presente. Esse movimento gerou a banalização do cotidiano, visto como repetitivo e sem importância. As rotinas, os pequenos gestos e os vínculos ordinários foram simbolicamente empobrecidos, como se a vida verdadeira estivesse apenas no extraordinário.
O psiquiatra e filósofo Viktor Frankl (1905–1997) falou em uma “metafísica do cotidiano”. Para ele, o aparentemente banal não é desprovido de profundidade. É no cotidiano que ocorre o encontro entre o finito e o infinito. Frankl formulou essa ideia como sobrevivente do Holocausto, deportado para campos ligados a Auschwitz e Dachau, onde perdeu os pais, o irmão e a esposa. A dignidade do cotidiano, para ele, não vem da abstração, mas da experiência extrema de destruição e sobrevivência.
Essa perspectiva convida a reconhecer que o infinito não é apenas promessa futura. Ele se inscreve nas práticas ordinárias: cuidado, responsabilidade, palavra empenhada, memória partilhada, trabalho silencioso, atenção ao outro. O extraordinário não se opõe ao ordinário; pode estar escondido nele.
Em tempos de velocidade e ansiedade, muitos estudantes chegam à sala de aula com temporalidades fragmentadas, pressionados pelo próximo passo. Ensinar, nesse contexto, não é só transmitir conteúdos, mas reeducar a atenção. É mostrar que pensar exige duração, que a experiência exige presença, e que o sentido aparece na dignificação das práticas ordinárias, como estudo, escuta, leitura, conversa, pesquisa e silêncio.
Essa intuição tem respaldo empírico. Um estudo experimental intitulado Short-Form Videos Degrade Our Capacity to Retain Intentions, apresentado na conferência ACM CHI 2023 em Hamburgo por pesquisadores da Ludwig-Maximilians-Universität München, mostrou que o consumo de vídeos curtos degrada a memória prospectiva, a capacidade de sustentar intenções no tempo. Uma meta-análise conduzida por Lan Nguyen e colaboradores da Griffith University, publicada em 2025 no periódico Psychological Bulletin com base em 71 levantamentos e mais de 98 mil participantes, apontou associação entre consumo intenso de vídeos curtos e enfraquecimento da atenção sustentada. Essas pesquisas sugerem uma crise da duração, elemento essencial para experiência profunda e pensamento elaborado.
Surge uma questão pedagógica: se as plataformas educam para a fragmentação, universidades e outras organizações formadoras deveriam educar para a duração. Há uma dimensão ética em transmitir a importância do cotidiano, ensinar resistência diante do tempo que banaliza a presença. Henri Lefebvre lembra que é na vida cotidiana que se reproduzem e podem se transformar as estruturas do mundo social. Recolocar o cotidiano no centro tem um caráter civilizatório.
Dignificar o cotidiano é reconhecer espessura no simples: responder a uma mensagem com cuidado, preparar uma refeição, escutar alguém, atravessar um dia de trabalho, ensinar uma aula, cultivar uma memória, cuidar de uma criança ou idoso, proteger um animal, manter um compromisso, arrumar a casa. Tudo isso pode ser expressão de sentido. Em um tempo de aceleração e futuros sempre adiados, recuperar a dignidade do cotidiano é gesto de resistência. A vida está acontecendo agora, e o encontro entre o finito e o infinito pode estar nesse território negligenciado.
