06/05/2026
Noticias Agoras»Notícias»Morcegos: serviço ecossistêmico no controle de pragas

Morcegos: serviço ecossistêmico no controle de pragas

Mesmo quando a noite parece quieta, há movimento no céu. No Cerrado, morcegos voam todas as noites. A maioria das pessoas não os vê nem ouve, mas eles trabalham silenciosamente.

Um morcego insetívoro pode passar a noite inteira se alimentando de insetos. Chega a comer quase o dobro do próprio peso em uma única noite. Muitos desses insetos são pragas agrícolas ou vetores de doenças. Sem que ninguém peça ou pague, os morcegos controlam parte dessas populações.

Esse trabalho natural reduz a pressão de pragas. O produtor rural precisa usar menos agrotóxico. Menos veneno no campo significa menos resíduo nos alimentos e menos impacto para quem planta e para quem consome.

Quando os morcegos desaparecem, ocorre um desequilíbrio. As pragas avançam e o agrotóxico ocupa o lugar do controle natural. Aumentam a exposição humana a venenos, as doenças e os custos de produção. Mas poucas pessoas percebem que esse serviço de controle de pragas estava sendo feito gratuitamente.

Um estudo publicado em 2024 na revista Science mostrou que a síndrome do nariz branco, uma infecção fúngica, quase dizimou populações de morcegos. Anos depois, o uso de agrotóxicos precisou aumentar em 31%. A consequência na saúde humana foi um aumento de 8% na mortalidade infantil. Ninguém associou diretamente o problema aos morcegos, mas eles estavam no centro da história.

Para evitar esse tipo de cegueira, surgiu o conceito de serviços ecossistêmicos. A ideia não é nova nem surgiu como moda, mas como estratégia para conservação da biodiversidade.

Cientistas sempre defenderam que a natureza precisa ser conservada por seu valor próprio. Isso não impediu a destruição ambiental. Então surgiu uma nova forma de explicar: a natureza sustenta a vida humana. Serviços ecossistêmicos são os benefícios que recebemos gratuitamente da natureza, sem interferência humana.

Na ecologia, existem funções ecológicas – processos naturais como um morcego comer insetos, uma abelha polinizar uma flor ou um animal dispersar sementes. Essas funções existem porque a natureza está funcionando, não para nos servir. Quando essas funções nos beneficiam, passam a ser consideradas serviços ecossistêmicos.

O morcego não está prestando um serviço. Ele faz o que sempre fez. Mas, ao reduzir pragas, diminuir o uso de veneno e melhorar a qualidade dos alimentos, isso se torna, para os humanos, um serviço gratuito. A sociedade se acostumou a pagar por tudo que tem valor e esquece que a natureza oferece coisas essenciais sem cobrar.

O solo que sustenta a produção agrícola, a vegetação que retém a água das enchentes, a dispersão de sementes que forma a paisagem, a polinização que gera os frutos consumidos – tudo isso são exemplos. Sem polinização e dispersão, não existe paisagem natural.

Nem tudo que envolve a natureza é serviço ecossistêmico. Quando se usam insumos para forçar a produção, pode-se estar explorando a natureza, mas não é ela trabalhando gratuitamente. É o ser humano explorando o ambiente para produção de curto prazo.

O conceito original de serviço ecossistêmico é aquele que emerge do funcionamento natural, sem que o homem redesenhe tudo. Conservar a natureza, nessa visão, não é apenas uma escolha ética, mas condição para a sobrevivência.

Há o risco de, ao transformar tudo em números, esquecer que a natureza tem valor cultural, estético e emocional. Em alguns lugares, médicos receitam que pacientes entrem na floresta para cuidar da saúde.

Uma árvore que refresca a rua, um pedaço de Cerrado que ajuda a água a infiltrar no solo, um morcego que suprime insetos sem ser notado – são exemplos cotidianos desse funcionamento.

O maior problema talvez seja que só se percebe o serviço quando ele para. Quando a enchente vem, o calor aumenta, a comida muda, a saúde piora. Ou quando números distantes, como a mortalidade infantil, começam a aparecer sem que se entenda a origem.

A natureza sempre esteve trabalhando. A pergunta é se a sociedade vai reconhecer isso a tempo de deixar que ela continue funcionando.

(*) Ludmilla Moura de Souza Aguiar é professora do Departamento de Zoologia do Instituto de Ciências Biológicas (IB) e atua nos programas de pós-graduação em Ecologia e Zoologia do IB.

Sobre o autor: Redacao Central

Equipe que trabalha em conjunto na redação e revisão de conteúdos com atenção à qualidade editorial.

Ver todos os posts →